Muito bem, queridos e queridas, momento de nos aproximarmos do final deste assunto, a adaptação, numa coincidência interessante com o que nossos alunos e alunas também estão fazendo por agora.
Rosely Sayão prossegue em seu texto com a seguinte conclusão:
“Para a criança, isso não é bom. Em primeiro lugar, porque a separação fica mais sofrida por durar muito mais tempo, o que dificulta e atrasa a apropriação de seu novo espaço. Em segundo, porque a sala fica com um clima artificial: professoras constrangidas, mães que interferem no espaço, crianças que poderiam ficar mais à vontade e que são aprisionadas pelo olhar da mãe etc.
Se as escolas fossem mais firmes no propósito de ter no aluno seu foco principal, esse período seria menos penoso para todos. Claro que algumas crianças continuarão chorando por um tempo para entrar na escola e algumas mães continuarão resistindo à separação, mas isso sempre ocorreu e ocorrerá.
Enquanto acreditarmos que esse processo é necessário, ele será. Só por isso, e não pela necessidade das crianças. Elas podem reagir diferentemente do que esperamos nessa situação. Basta que tenham oportunidade para tanto.”
Aqui, parece-nos, as proposições da autora trazem complicações mais sérias.
Afinal, a partir de afirmação unívoca - “para a criança, isso não é bom” - a autora nos coloca a todos, escola e família, na posição daqueles que criam e mantêm esta situação tão nociva.
Sayão também apresenta as razões que teríamos para fazer esse tipo de coisa com nossas crianças e argumenta que tudo se resolveria melhor sem nossa intervenção, que prolonga e artificializa a situação que, justamente, gera sofrimento às crianças.
Interessante notar que um dos comentários - o do Flávio - do post anterior a este lembrava justamente de quando as crianças iam à escola e separavam-se de seus pais no portão, desde o primeiro dia de aula e assim era para todo o sempre. Os pais deste tempo sabiam, inclusive, que ser chamados à escola era mau negócio: significava ou que seu filho tinha aprontado ou que ele não aprendia bem. Bons tempos?
O comentário do Flávio (Leleto) e a autora lembram que, sim, muitas crianças sobreviviam a esta situação sem maiores questões, passavam pela escola e pronto: a vida era assim mesmo. Apenas o Flávio, entretanto, lembra-se que também havia outras crianças: as que choravam; as que não choravam, mas para quem não estava tudo bem; as que faziam cara de tudo bem, mas paravam de falar, e uma infinidade de situações possíveis para a criatividade própria do humano (aliás, há um conto delicadíssimo e belo sobre um primeiro dia de aula desastroso mas que, nem por isso, tem qualquer poder destruidor sobre a vida do aluno, que acho que todos deveriam ler: A Língua das Mariposas. Sugiro que escolham a versão em Galego e desfrutem dois prazeres: o do texto, que é delicioso, e o de conhecer uma língua tão parecida com o Português, porque lhe deu origem!).
A permanência dos pais na escola pode não ser a melhor idéia para o período de adaptação no que concerne ao bem-estar da criança? Pode ser, para algumas crianças… Para outras, pode ser sensacional; para outras, ainda, pode ser indiferente, pouco importante; para outras, pode ser absolutamente essencial. Como dissemos no início, o que é impossível mesmo é fazer afirmações que cubram toda a enormidade da diversidade do humano em geral, da infância em especial.
Finalmente, uma última observação. A autora termina seu artigo dizendo que a adaptação, da forma como a fazemos não é uma necessidade para as crianças. Bem, pode não ser mesmo. Mas as necessidades dizem respeito apenas e exclusivamente à sobrevivência: alimentar-se, manter-se inteiro, proteger-se, etc.
A vida, como todos sabemos, é maior do que sobreviver, até por isso, recebe outro nome, não é mesmo? Por que a economia, nesse caso?



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