Queridos e Queridas,
Vocês são mesmo sensacionais!!!! Com seus comentários, economizamos anos – séculos, para ser mais precisa – de história da filosofia ocidental e podemos aproveitar melhor o mote do dia: a análise dos resultados do Enem 2008, divulgada hoje nas primeiras páginas dos jornais.
Apenas para manter a linha de nossa discussão, vamos organizar o que vocês já disseram, estabelecendo que desde o Renascimento e o abandono da idéia de que somos “imagem e semelhança” de algum deus, ficamos liberados da perfeição como algo realizável – esta ficou para a divindade – e fadados à perfeição como um ideal interessante. Ou seja, ficamos convencidos de que não é possível ser perfeito, mas não custa nada tentar, porque qualquer aproximação é interessante, uma vez que estas aproximações sucessivas nos levariam ao que vocês estão chamando de “dar o melhor de si”.
Parece um alívio, não é mesmo? Pois é, mas o problema de “dar o melhor de si” é o tal do pronome pessoal, como bem argumentou Leonardo (aliás, obrigada por Clarice, Léo, sempre um presente!), em seu comentário. Nós pedimos aos filhos e filhas que deem o melhor de si, mas como sabemos o que é mesmo esse melhor em cada situação dada para cada um deles? Então, não sabemos! Para decidir se o investimento de alguém foi o melhor possível para aquela pessoa naquele momento só há duas formas possíveis: comparar o desempenho ou os resultados obtidos por ela com os resultados obtidos por outros mais ou menos iguais ou perguntar à pessoa e tomar como verdadeira a resposta: você deu o melhor de si?

Por motivos para mim misteriosos, a primeira opção parece ser a mais usual, a preferida. E aqui chegamos ao Enem.
A classificação das escolas está em todos os jornais de hoje e as análises sobre os dados obtidos no Enem são fartas e plurais. Não encontrei, entretanto, uma análise que mostrasse o limite desta informação, limite importante para entendermos tudo o mais que se diz a respeito, inclusive a tão famosa classificação das escolas.
Vamos a ele, então: o Enem é um exame nacional de participação voluntária e com um fim pragmático. Em outras palavras, o Enem só é feito por aqueles que querem fazê-lo e estes costumam fazê-lo com um propósito bem específico: acumular pontos para o vestibular, preferencialmente o exame das grandes universidades estaduais ou federais.
Isso significa que as escolas que obtiveram os melhores resultados podem perfeitamente estar falando da participação exclusiva de seus três melhores alunos, todos eles interessados em ingressar nos cursos de medicina ou mecatrônica da universidade federal mais próxima.
Vamos ampliar a análise dos desdobramentos deste limite sobre as interpretações dos resultados do Enem, mas agora com a participação de vocês todos, que torna tudo mais interessante, sempre.
Abraço enorme e agradecido por seu interesse e envolvimento, que tornam meu trabalho aqui muito, muito mais divertido!


quarta-feira, 29. abril 2009
Lilian, eu também desconfio muito de rankings (e olha que eu sou economista!), ainda mais estes com muitos ruídos… Entendo que ele foi formado com a melhor das intenções (prefiro acreditar nisso), mas além da questão da prova ser voluntária, um ponto que me parece crucial neste tipo de ranking é o incentivo gerado para que as escolas mantenham ou desliguem alunos de acordo com o rendimento acadêmico dos mesmos.
Imaginemos que os alunos que não conseguem aprender com os métodos da escola (por culpa do método, do aluno ou de qualquer outra coisa) não participem da prova porque são desligados da escola? Então outra escola, a que aceitou o desafio de ensinar essa criança/adolescente, provavelmente terá uma penalidade na nota por tentar ensiná-lo…
Para mim, isso tem bastante relação com o que estávamos discutindo anteriormente: a perfeição talvez seja atingida após um processo, não necessariamente ela acontece da primeira vez que a gente tenta… Então, o aprendizado - que também é um processo, a meu ver - contém a parte do “estar errado” e uma certa distância – curta ou longa, dependendo da pessoa - para o “aprendi”. Se excluirmos as pessoas com mais dificuldade para aprender alguma coisa e ordenarmos as escolas pelo resultado na prova dos alunos restantes, estamos realmente medindo a “qualidade da educação” nesta escola ou a “qualidade da educação para um grupo seleto de alunos”? Será que é esse ranking o ideal para decidirmos onde colocar nossos filhos para estudar???
quinta-feira, 30. abril 2009
Olá pessoal!
Essa história de ranques está diretamente ligada às exigências que o Banco Central impõe aos países, em troca de empréstimos para aplicação nas áreas sociais. Com um olhar economicistas (e não de “economista”, viu, Regina!!) os tecnocratas do BM , que entendem educação como “investimento” que deve dar retorno produtivo (do ponto de vista da produção capitalista de bens de consumo), resolveram que, como tudo que se mede em termos de produção e rendimento, também o desempenho dos estudantes tem que ser dimensionado!
Agora, imaginem o seguinte: se o que é imposto por uma instituição tecnicista como essa visa ao retorno em termos de produção, o que é que se mede de verdade? O ensino propedêutico e universalista que todo ser humano precisa para se apropriar mais facilmente da cultura humana (claro que cultura só pode ser humana; só coloquei o qualificativo aqui pra diferenciar do que se convenciona chamar de culturas, no plural, diferenciando os costumes regionais)?
Me parece que o que se mede nesses exames externos é a capacidade que os alunos desenvolvem de decorar e operar uma certa gama de conhecimentos muito parecidos com aqueles que se cobra nos vestibulares: uma porção de inutilidades que esquecemos, graças aos deuses, logo depois que ingressamos nas faculdade! (quem aí ainda se lembra perfeitamente das fórmulas de resolução das equações do 2º grau ou dos logarítmos? E da fórmula da fotossíntese ou daquelas de física que se usa pra resolver problemas do MUV?)
Talvez os alunos que pior se saiam nesses ranqueamentos sejam, de fato, as “melhores cabeças”!!!
Abraceijos…
Leleto
quinta-feira, 30. abril 2009
queridos Ânima-dos:
Considerando que os pais Ânima-dos vão ter que enfrentar o dilema da escolha por uma outra escola no ensino fundamental, uma vez que a Ânima atende aos alunos até o 3º ano, sugiro que os interessados pudessem conversar em uma roda informal pessoalmente um dia desses sobre o assunto.
Considerando também o desconhecimento da maioria dos pais do conteúdo e dos efeitos dessas novas regras do ENEM; e das dúvidas que nos cercam sobre esse “Monstro do Lago Ness” perfeitamente domável, que tal transpormos a conversa do blog para um encontro pessoal?
Sugiro isso porque li cuidadosamente a reportagem da Folha de ontem “Especial Educação” sobre o novo ranking das escolas no ENEM e me apareceram 3 aberrações nesse ranking:
1) As escolas no topo do ranking têm realizado sistematicamente um esforço pela “homogeneização” dos seus alunos a partir da defesa dos seguintes valores:
a) no Colégio São Bento no RJ topo do ranking, só entram meninos. A diretora disse que “não há nenhum projeto que contrarie esta norma”. Os alunos em plena puberdade entram nas melhores faculdades e não sabem como lidarem com as mulheres;
b) As escolas que oferecem bolsas de estudo aos alunos provenientes de escolas carentes “fora do ranking” estariam rebaixando sua posição na lista. As escolas preocupadas no ranking ENEM premiariam a convivência exclusiva dos seus alunos somente com integrantes da sua classe social;
c) A separação das classes, realizadas pelo Colégio Bandeirantes a partir do ranking do aluno internamente na sua série, estaria forçando a convivência dos “mais inteligentes” entre si e, respectivamente os “médios” e os “menos”;
2) Concordo pela primeira vez com o Marcelo Coelho da Folha sobre os conceitos utilizados por algumas escolas, que ele denomina como “Coeficiente de Babaquice”, “Coeficiente de Hipocrisia”, “Coeficiente de Organização”, “Coeficiente de Massificação”. Só para citar alguns exemplos dados por ele, é uma contradição uma escola “obrigar os alunos a participar de um projeto social” ou ambiental, sendo que a maioria não sabe o que é pegar um ônibus ou um metrô e só anda de carro;
3) Por último, a maioria delas estuda uma média de 10 horas por dia, sendo que, segundo Leleto, ficariam peritas em logaritmos, porém catatônicas em cinema, teatro, eventos culturais, esportivos, sociais, etc.
Nos finais de semana ainda seriam cobradas pelos pais a fazer aula de inglês, etc.
ufa, beijos, tchau,
bom final de semana.
luciana.
quem quiser fazer um piquenique no feriado em algum parque desses, me ligue: 8175-3957.
sexta-feira, 1. maio 2009
Lu, topo total o encontro pessoal para ampliar a discussão virtual, especialmente porque o Enem e suas análises são cheios de pequenas armadilhas.
Ah, e aproveito para fazer uma correção breve: a Ânima atenderá as crianças e suas famílias por todo o período até o Quinto Ano do Novo Ensino Fundamental ou a antiga 4ª série… não nos abandone antes do tempo!
Beijos a todos e espero que o piquenique se realize, sim.
Para mim, este é o final de semana da Virada Cultural!!!!
Lilian