Queridos e Queridas,
Como nossa discussão sobre o Enem e suas interpretações foi transferida para outra instância, achei que poderia ser bem interessante retomarmos aqui nossa discussão original sobre a ilusão de perfeição e o lugar que ela vem ocupando no imaginário de todos nós, pós-modernos, especialmente estes de nós que resolvemos aceitar o desafio e a aventura que é ter filhos e filhas.
Como disse antes, vocês são rápidos e suas participações fazem a discussão andar por rumos novos e inesperados.
Nos comentários de vocês, aparecem duas idéias fortes que, creio, podemos explorar juntos: a perfeição como ideal, por definição inalcançável, mas que mantida como referência nos proporcionaria um percurso de aproximações sucessivas desejável e a negação completa da perfeição, até mesmo como ideal desejável, e sua substituição por idéias mais relativas, como “o possível” ou “o melhor de si”.
Pessoalmente, fui convencida, ao longo da e pela vida, de que “o possível” ou “o melhor que podíamos para o momento” é a única coisa com que podemos contar certamente. E esta é uma posição que me parece interessante pelos motivos que passo a elencar.
Primeiramente, saber que fazemos “o melhor que podemos para o momento” não gera culpa. Mesmo que analisemos a situação posteriormente e, então, descubramos que havia, sim, alternativas interessantes para aquela que, eventualmente, escolhemos, aí já é outro momento e a análise se beneficia de elementos que não estavam disponíveis quando da escolha – como, por exemplo, os efeitos e desdobramentos que todas as escolhas trazem em si – e aí, não vale, é claro.
Por outro lado, e como segunda vantagem intrínseca, a análise posterior, esta mesma que conta com os tais novos elementos, se dá, obviamente, em outro momento, e isso significa sempre que podemos aprender, pois se tivéssemos que escolher novamente, agora, escolheríamos diferentemente e, supostamente, melhor, pois sabemos mais sobre o objeto da escolha do que sabíamos antes.
Terceira vantagem, complementar à segunda: na maior parte dos casos, as escolhas não são fatalismos – sempre há possibilidade e tempo para reverter, mudar de idéia, fazer correções desejáveis. A vida anda.
Quarta e a mais importante das vantagens: convencer-se de que não só nós mesmos, mas todos, fazemos nossas escolhas assim, apresentando “o melhor que podem para o momento” e, por extensão, todas se beneficiam das vantagens já enumeradas, conseguimos uma dimensão generosa de compreensão para nossos pares e iguais que transforma todas as nossas relações.
Muito bem, agora façam comigo um breve exercício: apliquem cada uma das vantagens apresentadas ao cotidiano que todos vivemos com nossos filhos e filhas. Acresçam a isso o espaço para surpresas e inesperados que esta posição traz em si, necessariamente…

Bem, não sei se consegui convencê-los, nem sei se era isso que queria, realmente, mas posso declarar que em minha vida e em retrospectiva, isto me garantiu uma deliciosa coleção de dias perfeitos, cujas histórias minha filha não se cansa de ouvir.


domingo, 10. maio 2009
Concordo plenamente com a noção de que “o possível” ou de que “o melhor que podemos para o momento” pode proporcionar realmente momentos maravilhosos. Não estou sendo contrário à noção de planejamento, mas temos que considerar que não somos senhores de todas as variáveis em nossa vida. Creio que é muito imporante passar para nossos filhos a idéia de que uma atividade cujo planejamento foi modificado “em cima da hora” pode ser uma oportunidade para uma experiência diferente e igualmente interessante àquela originalmene planejada. Com isso, vilumbro uma quinta vantagem: passamos a noção de que o imponderável pode também trazer boas oportunidades e, com isso, reduzimos a frustração por algo que foi executado de forma diferente da inicialmente planejada. Um abraço a todos.
terça-feira, 12. maio 2009
Acho que seu comentário fala de um ponto muito interessante, Helio: mudanças podem ser boas, mesmo aquelas que nós não antecipávamos… Trabalhando com pessoas mais velhas do que nossos filhos - meus alunos têm em torno de 20 anos - percebo a necessidade deles pelo que é “imutável”. Uma questão de prova, por exemplo, não pode ser diferente da feita no semestre anterior, pois é muito “difícil” pensar o diferente (ou o que eu mais escuto: “V. não gosta de nós!”). Após um certo tempo de convivência entre nós, eles entendem o porquê de coisas diferentes aparecerem no meio do caminho e alguns até acham isso instigante.
Acho que o ideal de perfeição que ao longo do tempo a sociedade vem apresentando, algo que é tão longe do realizável, gera ansiedade e cobranças desnecessárias para vida de pessoas tão jovens (e dos não tão jovens assim também!). Se nós conseguíssemos alterar o planejado internamente e aceitar que o melhor possível é o perfeito daquele momento, talvez a vida deles e a nossa também ficasse bem mais feliz, não?