• terça-feira, junho 23rd, 2009

Queridos e Queridas,

Continuamos a falar sobre mesada, dinheiro e consumo, como parte de nosso projeto de compartilhar dúvidas, questões, pensamentos, idéias que começam de forma particular, mas que nos tocam a todos, não é mesmo?

Conforme prometido, aqui está a resposta à pergunta de Renato e Roberta:

Ro, querida,
A vida nunca é fácil como deveria, não é mesmo?

Muito bem, vamos por partes.

A questão, aqui, não é o dinheiro (nunca é) mas o valor das coisas, neste caso, um valor que também é monetário.

Assim, é preciso ensinar que dinheiro é mercadoria de troca, ou seja, Lucas tinha 30 reais mais um tanto em moedas e acabou esta história com dois carrinhos que valem o mesmo que o dinheiro que ele tinha antes mais 12 reais, que ele ficou devendo.

Entendeu?

Não?

Vamos de novo: quando compramos alguma coisa, escolhemos trocar aqueles papeizinhos que chamamos de dinheiro por coisas de igual valor. Assim, o valor não se altera, apenas o formato da coisa.

Ao trocar o dinheiro com você, ele padeceu da ilusão de que podemos, por algum motivo especial, ter tudo…. bem a ilusão é comum, mas a realidade é mais comum ainda: não podemos ter tudo!

Daí a sugestão sempre boa de pensar bem antes da troca, porque depois as coisas complicam.

Quanto à mesada: acho que alguma coisa em torno de cinco reais é mais do que interessante, desde que este dinheiro não seja destinado a gastos do cotidiano, tipo lanche na cantina

.
É preciso entender que a única função de uma mesada para uma criança dessa idade é ensiná-la a tomar suas decisões monetárias e éticas.

Se a gente der o dinheiro com destino prestabelecido, justamente isso se perde.

Isto posto, é preciso saber que eles fazem um monte de asneiras e tomam decisões que arrepiam os cabelos de qualquer cristão, como comprar um monte de balas ou coisas que são negadas (como o carrinho), ou pior, proibidas (não sei vocês, mas na minha casa era o cd da Xuxa, por exemplo) pelos pais.

Em casa, a regra era a seguinte: o que eu negava, ela podia comprar com o dinheiro dela; o que eu proibia, dinheiro nenhum poderia comprar, porque as razões não eram monetárias, eram éticas, neste caso, estéticas também, e dinheiro não muda estas razões, não importa quem seja o dono.

Bem, é sempre bom lembrar que asneiras são a maior parte e a mais importante de qualquer aprendizagem, então, respirem fundo.

Finalmente, Fefa: muito mais fácil.

É só dizer a ela, e sustentar, que mesada é coisa de menino e menina grande, como o Lucas, que ela ainda não chegou lá, mas chegará, é só esperar e, então, terá mesada.

Por enquanto, ela poderá coletar as moedinhas de troco, como o irmão fazia até agora, pois isso é o que fazem as crianças menores.

Além disso, quando chegar o tempo dos dentinhos dela caírem, aí o capitalismo impera e a fada do dente lhe dará uma destas pequenas fortunas…..

Ufa, acho que foi tudo, mas se não foi, escrevam novamente,

beijos,

Li

Escola Anima

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4 comentários

  1. 1
    Regina (mãe da Anouk, G5) 
    terça-feira, 23. junho 2009

    Muito legal a forma com que este assunto foi abordado, tanto por colocar a questão da Roberta e do Renato, como por nos dar tempo para refletir o que fazer… Em nossa casa, já há algum tempo adotamos o cofrinho e a Anouk recolhe moedas de absolutamente qualquer pessoa que ela sinta um pouco de confiança. Geralmente, após alguns meses, ela pede para abrir o cofre para comprar algum brinquedo. Algumas coisas que aconteceram e que tem a ver com o que discutimos:
    i) A primeira vez que o cofrinho foi esvaziado, ela chorou copiosamente porque ele havia ficado “leve”… Só se conformou com isso após muitas explicações econômicas (ambos os pais são economistas, vejam que perigo!)
    ii) Após este incidente, ela começou recorrer a outra tática: não usar suas próprias moedas, o que parecia sensato, pois o cofrinho só “ganhava” peso…
    iii) Um dia, “assaltamos” o cofrinho dela para comprar pão e ela concordou em ceder as moedas. Entretanto, uma semana depois, quando pediu dinheiro para o pai para comprar mais um brinquedo e isso lhe foi negado, a Anouk perguntou não tão inocentemente: “Pai, v. já colocou de volta no meu cofrinho as moedas que tirou para comprar pão?”
    Ou seja, acredito que é realmente positiva esta relação deles com suas mesadas e cofrinhos. Apesar de escolherem coisas que não tem “valor” para nós pais, o fato de poderem escolher e até se arrependerem no futuro já é um grande aprendizado…
    Abraços a todos,
    Regina (mãe da Anouk, G5)

  2. 2
    Patricia (mãe Matheus 2o ano) 
    quarta-feira, 24. junho 2009

    Tive a oportunidade de conversar com o Matheus sobre o valor do dinheiro quando, no aniversário, me pediu um DS (game da Nintendo portátil). O valor era R$650,00. Eu não tinha o dinheiro para o presente, entao conversei com ele sobre o quanto custava (= a 65 revistas recreio) e ele pode ter idéia do montante. Como ele havia guardado $ de Natal de tia, avô e avó, ele pôde pagar 1/3 do brinquedo e fizemos arrecadação na familia para pagar o restante. No dia em que fomos à loja comprar ele fez o seguinte comentário “Mãe, já sou quase adulto, consegui juntar dinheiro para comprar uma coisa que eu queria muito”.

  3. Olhando os dois textos relacionados ao mesmo tema e os comentários muito oportunos que li cheguei à conclusão que deveria, eu, dar meu depoimento aqui, posto que sou uma pessoa a quem tudo isso faltou e que, hoje, sofre, praticamente sozinho, as conseqüências e não ter recebido uma “base” quando criança.
    Vim de uma família pobre, mas pobreza, em si, não é problema.
    O problema é que sou filho de um pai rude, criado “no cabo da enxada” que tinha como modelo educador o meu avô, que educava na base do rabo de tatu.
    Os meus erros eram punidos com pancadas e meus acertos eram nada mais que “minha obrigação”.
    Aos dez anos fui abandonado pela minha mãe, que literalmente fugiu do meu pai, deixando a mim e a um irmão de 2 anos literalmente à mercê do meu pai, um homem a quem hoje reputo literalmente necessitado de auxílio psiquiátrico.
    Passei dois anos apanhando mais do que o de costume, sob os olhares indiferentes de vizinhos e parentes, até que, para sobreviver, eu fugi de casa.
    Tinha, então, doze anos.
    Morei nas ruas de São Paulo por cinco anos, até que uma garota de programas se apiedasse de mim e me desse as coisas básicas:
    Duas calças. Três camisas, um par de sapatos e um EMPREGO como lavador de pratos numa boate do baixo meretrício da cidade, chamada Louvre.
    Um ano depois eu me tornei o assistente de sonoplasta (hoje, DJ).
    Eu não tinha valores.
    Não tinha a menor noção do que era amor, e do que era sexo. E menos ainda do que era dinheiro.
    Assim, aos 19 anos, entrei pela vida, ganhando um bom dinheiro sem a menor noção do que fazer com ele.
    E, assim, eu o gastava todos os dias, da mesma forma como o recebia todas as noites.
    Nenhuma preparação para o futuro, nenhuma noção sobre nada.
    Só e cego.
    Desnorteado.
    Sem valores morais que me levassem a respeitar os sentimentos e posições de outros seres humanos eu usava o que tinha, a minha lábia, para seduzir mulheres e, assim, conseguir a única coia que me fazia setir bem:
    Sexo.
    Mas não me apegava a nenhuma delas.
    Descartava-as como quem descarta fósforos.
    Hoje, depois de de dez anos de psicanálise e psiquiatria eu compreendo que buscava naquelas moças o que eu jamais poderia encontrar: Amor de mãe (isso faz falta).
    E tinha, como ainda tenho, notável beligerância contra homens (hoje eu ainda procuro controlar, mas meus profissionais de serviços são sempre mulheres. Dentistas, cabeleireiras, médicas, enfermeiras, não permito que um homem me toque em hipótese alguma).
    Na súmula das súmulas eu cheguei aos 32 anos sem nenhuma economia, sem nenhum amigo, sem nenhuma posse ou garantia e ainda esbarrei com um diagnóstico positivo para HIV.
    Certo, eu fiz minhas escolhas, mas minhas escolhas eram poucas, posto que eu não tinha base para escolher melhor e, assim, arquei com todas as conseqüências de meus atos sozinho.
    E foi sozinho que eu recomecei, mas não foi sem ajuda que cheguei aqui, aos 45 anos, vivo, saudável, com um bom trabalho na mão e alguma respeitabilidade.
    Digo tudo isso, não para mostrar-me como mártir, mas para mostrar que vocês estão no caminho certo.
    O apoio afetivo, as lições bem aplicadas, as proibições, os limites, as negativas, temperadas com bom senso representam praticamente 80% da formação do adulto equilibrado que eu não fui por quase duas décadas, correndo atrás do prejuízo.
    Nada mais a dizer, proponho a todos uma reflexão sobre a minha história, que é tudo o que não deve acontecer…

  4. Claudio,

    obrigado pelo incentivo, obrigado por compartilhar a sua história.
    Identifico-me muito com o seu processo de crescimento por traumas de infância também. Estou quebrando o legado que me foi deixado e estou lutando para não passar isso a minha filha, permitindo que ela tenha uma infância feliz, compartilhada, com limites, valores claros, diálogo.
    Suas vitórias e palavras só me incentivam a aprofundar-me no caminho do relacionamento com qualidade, verdade, amor, apesar dos erros.
    Mas temos a possibilidade de pedir perdão que é tão curador.

    Muito obrigada, vá em frente.
    Cláudia Vieira

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