◊ julho, 2009 ◊

• quinta-feira, julho 02nd, 2009

A antecipação da alfabetização e a perda do lúdico

Queridos e Queridas,

Como é costume, nossas conversas por e-mail sempre geram outras conversas, outras questões, outras histórias. A conversa com a Dani foi assim também e, a cada nova mensagem, tornava-se cada vez mais rica e interessante. Vejam como neste “condensado” – uma postagem que agrega o primeiro e-mail com as perguntas, e o segundo, com as respostas:

Li,

Me ajuda com mais algumas dúvidas?

Por que houve essa mudança na lei da escola, que trouxe esse adiantamento no processo de alfabetização?
Tem a ver somente com uma questão política e econômica, de repasse de verbas das instâncias governamentais? Ouvi isso de passagem e fiquei apavorada!

1. A mudança da lei: ela não atrasa nem adianta processos de alfabetização, apenas determina uma idade diferente para o ingresso na escola de ensino fundamental. Veja bem, não há nada na lei que determine o que se estuda na escola de ensino fundamental, portanto não há alteração de currículo. Sim, ela atende a interesses mais ligados à escola pública, como a destinação de verbas e atribuição (federal, estadual ou municipal) sobre os níveis de Ensino.

Por que há tanta resistência em ensinar a escrita pras crianças mais novas?

2. Quem resiste ao ensino da escrita para crianças mais novas? Tenho observado o contrário, um desejo desmedido de antecipação de ensinar não só a escrita, mas tudo antes, muito antes do que se faz classicamente, por motivos dos mais esquisitos: janelas de oportunidade, inteligências múltiplas, mundo competitivo, mercado de trabalho, sei lá….
Os resistentes são poucos e bravos….

Ela tem o poder de acabar com o lúdico, de anular possibilidades criativas? Destrói algum encanto? Eu não compreendo isso.

 

Como saber se o ensino da escrita e dos números está sendo apenas uma “brincadeira” ou se está sendo alfabetização de verdade?

3. Não há conteúdo ou conhecimento, exceto o sexual, que tenha poder, por si, de acabar com o lúdico, mas há um montão de adultos com este poder, sim. Então, se para ensinar uma criança de três ou quatro anos – ou sete, oito, dez anos – a escrever ou o que quer que seja, considero necessário que ela passe todo o tempo sentada e inativa, atenta ao que um adulto fala ou mostra, ou dedicada a um sem número de atividades gráficas que consomem seu tempo, olhos e dedinhos, bem algo está errado e o lúdico será certamente extinto, se por mais nada, pela falta de tempo para ele….

É preciso lembrar, sempre, que ler e escrever são verbos transitivos diretos, não? A gente lê e escreve algo e são esses muitos algos aos quais se tem acesso por meio da leitura e escrita que, no limite, vão eliminar o lúdico, ou, antes, transferi-lo para outras instâncias da atividade humana, como a literatura, por exemplo.

O que é feito na Waldorf de tão diferente das outras escolas?
Por que não há vagas e há tanta procura nas escolas Waldorf? Você conhece a pedagogia? Qual sua opinião?

4. Escolas Waldorf exigem convicção e fidelidade. Baseadas nas teorias de Rudolph Steiner, falam de uma forma de estar no mundo, muito mais do que uma escola. Pedagogicamente, tem problemas que considero severos, mas é sempre preciso considerar o que se deseja para nossas filhas para fazer esta avaliação (lembre-se que você pediu minha opinião, não uma avaliação técnica!). Conheço bastante bem esta modalidade de educação e, se você quiser, podemos conversar mais longamente sobre isso.
O problema de vagas é mais fácil: são poucas escolas e, como disse, atendem a famílias fiéis….

Beijos,
Lilian