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• terça-feira, outubro 20th, 2009

Queridos e Queridas,

Carbono Zero é a nossa meta

Nada melhor do que boas notícias para a gente recomeçar uma conversa, não?

Neste ano a Escola Ânima completa 25 anos de existência!!!!

Preparamos muitas coisas para celebrar esta data, esta conquista. Algumas delas serão pontuais, outras vem sendo feitas no decorrer de todo este ano. Uma das mais deliciosas é nosso projeto de neutralização de nossas emissões de carbono.

Desde o ano passado, em parceria com a Max Ambiental, uma empresa especializada, vimos calculando quanto carbono lançamos na atmosfera com nosso consumo. É um cálculo que envolve muitas variáveis: o lixo que produzimos no período de um ano, quanto de energia elétrica consumimos, quanto de combustíveis fósseis, como gás e gasolina.

Calcular quanto emitimos de carbono, entretanto, é apenas o começo da história; ainda é preciso calcular quantas árvores precisaremos plantar e manter para que nossas emissões de carbono sejam neutralizadas.

Bem, passamos um tempo fazendo todos estes cálculos e escolhendo um lugar para plantar nossas árvores. Escolhemos a Fazenda Japiápé, que fica no munícipio de Cajamar, em meio a Área de Proteção Ambiental da Serra do Japi. Para receber nossas mudas, a Fazenda Japiapé precisou passar por um processo de certificação, pois era necessário demonstrar que as mudas que plantássemos ali ficariam protegidas até efetivamente crescerem e se tornarem árvores.

Depois, precisávamos de 250 mudas de espécies nativas de Mata Atlântica, cobertura original da região. Foi a vez do Instituto Estre Ambiental nos ajudar, fornecendo as mudas no tamanho recomendado pela agrônoma, outra variável que podíamos controlar para assegurar que as plantas crescessem e virassem as árvores que manteriam o carbono do nosso consumo fora da atmosfera.

Tudo pronto? Quase tudo… Com o lugar, o cálculo, as mudas, só precisávamos do dia de amanhã: quando nossos alunos e alunas vão plantar, cada um deles uma muda de árvore. Afinal, tudo o que falamos para as crianças sobre as responsabilidades individuais e responsabilidades coletivas sobre nosso próprio destino e o destino do planeta deve ter alguma aplicação prática, não?

No final do ano, convidaremos a todos para uma nova visita à Fazenda Japiapé, para vermos como estão nossas pequenas árvores.

E, quem sabe, daqui a alguns anos, possamos voltar lá e aproveitar a sombra que farão, a beleza das flores e a alegria de ter participado.

Carbono Zero, repetimos, é a nossa meta!

• terça-feira, junho 30th, 2009

A alfabetização e a familiarização com os símbolos gráficos

Queridos e Queridas,

Continuando nossa proposta de tornar públicas conversas interessantes que acontecem por e-mail e, assim, particularmente, publicamos agora a conversa com a Dani, mãe de uma aluna de nosso G5.
Dani participa de um grupo de discussão, também virtual, destinado a mães e pais de crianças desta idade e usou, para responder à pergunta de outro membro do grupo, algo que já havíamos discutido em uma de nossas reuniões de pais, aqui na Ânima.

Assim, começaremos essa nova partilha com o texto que a própria Dani escreveu para responder à dúvida de sua companheira de grupo e de maternagem:

Escrevi esse email abaixo há pouco para algumas mães da minha lista de discussão, quando apareceu uma mãe apavorada porque seu filho de 5 anos está tendo muitas lições de casa para aprender a escrever as letras cursivas.

Tentei resgatar o que ficou pra mim daquela palestra sobre alfabetização e os conteúdos do G5 e 1o ano:

Eu também tinha essa preocupação com a alfabetização da Clara, que está com 4,6
anos.

Ela já conhece todos os números e letras do alfabeto e está aprendendo a
escrever todos eles em letra de forma.

Faz tudo ao contrário, faz letra emendada, voando, fora de ordem, eu dou
risada. E apóio e oriento as lições dela, que sempre pedem para fazer um
desenho e depois as letras da palavra desenhada.

Percebo que há muito interesse dela sobre isso, muito mesmo, principalmente
depois que ela descobriu que eu uso essas letras o dia inteiro porque fico no
computador trabalhando.

Ela quer entender o que eu faço e aprender as letras
é como ela acha que pode compartilhar esse conhecimento comigo.

Numa reunião na escola da Clara com a diretora pedagógica, acabei
convencida de que esse relacionamento das crianças com as letras e os
números não é alfabetização ainda, mas uma familiarização das crianças com sinais
gráficos, uma vez que aos 4 ou 5 anos elas já começam simbolizar
mais.

Segundo ela, mesmo se relacionando com as letras desde os 4 anos, as
crianças não aprendem a ler (ainda que algumas o façam, meio sem querer).

A maioria acaba escrevendo as letras desde os quatro, mas só consegue ler de verdade
aos 7 ou 8 anos, como num passe de mágica, pois esta é uma aprendizagem que envolve muito mais do que meramente desenhar letras e números e leva muito tempo para ser organizada.

O que a escola está trabalhando não é só alfabetização, mas o aprimoramento do campo simbólico.

Ela diz que o objetivo pedagógico não é apenas ensinar a ler e escrever, mas trabalhar mais duas classes de sinais/códigos humanos (números e letras), porque nessa idade as crianças já sacam que existem esses códigos, que os adultos os dominam e com que podem comunicar idéias (assim como elas – crianças – já sabem que podem comunicar
idéias
com os desenhos que elas produzem).

O aprendizado da escrita acaba chamando mais a atenção dos pais no conjunto da
obra, não se sabe bem porquê, mas no G5 da Ânima a escrita é trabalhada diariamente, embora de formas muito diferentes, é também trabalhada desde que as crianças são muito pequenas, muito menores do que os cinco anos de sua filha, assim
como o desenho, a música, a pintura, as atividades motoras, enfim, é mais
uma dentre as tantas atividades que as crianças têm durante o período escolar.

Como ela confere um certo “poder” às crianças, porque elas se sentem mais
“adultas” achando que dominam um código antes pertencente exclusivamente ao
mundo dos adultos, elas acabam dando mais destaque a esse aprendizado do que aos
outros, então parece que estão aprendendo só isso. Mas não é por aí.

Eu me convenci disso. O que parece a vocês?

Espero ter ajudado,

Bjs, Dani

• terça-feira, junho 23rd, 2009

Queridos e Queridas,

Continuamos a falar sobre mesada, dinheiro e consumo, como parte de nosso projeto de compartilhar dúvidas, questões, pensamentos, idéias que começam de forma particular, mas que nos tocam a todos, não é mesmo?

Conforme prometido, aqui está a resposta à pergunta de Renato e Roberta:

Ro, querida,
A vida nunca é fácil como deveria, não é mesmo?

Muito bem, vamos por partes.

A questão, aqui, não é o dinheiro (nunca é) mas o valor das coisas, neste caso, um valor que também é monetário.

Assim, é preciso ensinar que dinheiro é mercadoria de troca, ou seja, Lucas tinha 30 reais mais um tanto em moedas e acabou esta história com dois carrinhos que valem o mesmo que o dinheiro que ele tinha antes mais 12 reais, que ele ficou devendo.

Entendeu?

Não?

Vamos de novo: quando compramos alguma coisa, escolhemos trocar aqueles papeizinhos que chamamos de dinheiro por coisas de igual valor. Assim, o valor não se altera, apenas o formato da coisa.

Ao trocar o dinheiro com você, ele padeceu da ilusão de que podemos, por algum motivo especial, ter tudo…. bem a ilusão é comum, mas a realidade é mais comum ainda: não podemos ter tudo!

Daí a sugestão sempre boa de pensar bem antes da troca, porque depois as coisas complicam.

Quanto à mesada: acho que alguma coisa em torno de cinco reais é mais do que interessante, desde que este dinheiro não seja destinado a gastos do cotidiano, tipo lanche na cantina

.
É preciso entender que a única função de uma mesada para uma criança dessa idade é ensiná-la a tomar suas decisões monetárias e éticas.

Se a gente der o dinheiro com destino prestabelecido, justamente isso se perde.

Isto posto, é preciso saber que eles fazem um monte de asneiras e tomam decisões que arrepiam os cabelos de qualquer cristão, como comprar um monte de balas ou coisas que são negadas (como o carrinho), ou pior, proibidas (não sei vocês, mas na minha casa era o cd da Xuxa, por exemplo) pelos pais.

Em casa, a regra era a seguinte: o que eu negava, ela podia comprar com o dinheiro dela; o que eu proibia, dinheiro nenhum poderia comprar, porque as razões não eram monetárias, eram éticas, neste caso, estéticas também, e dinheiro não muda estas razões, não importa quem seja o dono.

Bem, é sempre bom lembrar que asneiras são a maior parte e a mais importante de qualquer aprendizagem, então, respirem fundo.

Finalmente, Fefa: muito mais fácil.

É só dizer a ela, e sustentar, que mesada é coisa de menino e menina grande, como o Lucas, que ela ainda não chegou lá, mas chegará, é só esperar e, então, terá mesada.

Por enquanto, ela poderá coletar as moedinhas de troco, como o irmão fazia até agora, pois isso é o que fazem as crianças menores.

Além disso, quando chegar o tempo dos dentinhos dela caírem, aí o capitalismo impera e a fada do dente lhe dará uma destas pequenas fortunas…..

Ufa, acho que foi tudo, mas se não foi, escrevam novamente,

beijos,

Li

Escola Anima

• terça-feira, maio 26th, 2009

Queridos e Queridas,

as coisas andam meio paradas por aqui, mas é que começamos o processo de feitura dos relatórios e isso consome um montão do meu tempo.

Além disso, temos algumas pendências, que estou tratando de resolver. Descobri que podemos por músicas aqui, sim, Tatiana.

Então, pedi ao Cadu, nosso professor, que grave as crianças cantando em suas aulas e logo que estes arquivos estiverem disponíveis, colocarei aqui para todos. Acho que vai ficar bacana, vamos ver.

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A outra pendência não é exatamente uma pendência, mas um convite. Embora eu esteja muito envolvida com os relatórios, lembrei de que este, desde o início, é um espaço de todos nós! Assim, não preciso ser sempre eu a postar, todos vocês podem fazê-lo!!!! Espero que façam mesmo!

Para isso, basta enviar a postagem para o e-mail da Ânima, que eu coloco aqui, para todos!

Nosso endereço está disponível em nosso site, mas aqui vai um link para facilitar a vida:

contato@escolaanima.com.br

Esperarei por suas contribuições!

Abraços imensos e saudosos dessa nossa gostosa interlocução!

• quinta-feira, maio 07th, 2009

Neste sábado temos a atividade de comemoração do Dia das Mães aqui na escola!
Todos estão convidados!
Organizem-se, venham, aproveitem o dia com as crianças, afinal, este é sempre um jeito bacana de começar o que pode acabar sendo mais um dia perfeito para nossas coleções pessoais!!!!

• quinta-feira, maio 07th, 2009

Queridos e Queridas,

Como nossa discussão sobre o Enem e suas interpretações foi transferida para outra instância, achei que poderia ser bem interessante retomarmos aqui nossa discussão original sobre a ilusão de perfeição e o lugar que ela vem ocupando no imaginário de todos nós, pós-modernos, especialmente estes de nós que resolvemos aceitar o desafio e a aventura que é ter filhos e filhas.

Como disse antes, vocês são rápidos e suas participações fazem a discussão andar por rumos novos e inesperados.

Nos comentários de vocês, aparecem duas idéias fortes que, creio, podemos explorar juntos: a perfeição como ideal, por definição inalcançável, mas que mantida como referência nos proporcionaria um percurso de aproximações sucessivas desejável e a negação completa da perfeição, até mesmo como ideal desejável, e sua substituição por idéias mais relativas, como “o possível” ou “o melhor de si”.

Pessoalmente, fui convencida, ao longo da e pela vida, de que “o possível” ou “o melhor que podíamos para o momento” é a única coisa com que podemos contar certamente. E esta é uma posição que me parece interessante pelos motivos que passo a elencar.

Primeiramente, saber que fazemos “o melhor que podemos para o momento” não gera culpa. Mesmo que analisemos a situação posteriormente e, então, descubramos que havia, sim, alternativas interessantes para aquela que, eventualmente, escolhemos, aí já é outro momento e a análise se beneficia de elementos que não estavam disponíveis quando da escolha – como, por exemplo, os efeitos e desdobramentos que todas as escolhas trazem em si – e aí, não vale, é claro.

Por outro lado, e como segunda vantagem intrínseca, a análise posterior, esta mesma que conta com os tais novos elementos, se dá, obviamente, em outro momento, e isso significa sempre que podemos aprender, pois se tivéssemos que escolher novamente, agora, escolheríamos diferentemente e, supostamente, melhor, pois sabemos mais sobre o objeto da escolha do que sabíamos antes.

Terceira vantagem, complementar à segunda: na maior parte dos casos, as escolhas não são fatalismos – sempre há possibilidade e tempo para reverter, mudar de idéia, fazer correções desejáveis. A vida anda.

Quarta e a mais importante das vantagens: convencer-se de que não só nós mesmos, mas todos, fazemos nossas escolhas assim, apresentando “o melhor que podem para o momento” e, por extensão, todas se beneficiam das vantagens já enumeradas, conseguimos uma dimensão generosa de compreensão para nossos pares e iguais que transforma todas as nossas relações.

Muito bem, agora façam comigo um breve exercício: apliquem cada uma das vantagens apresentadas ao cotidiano que todos vivemos com nossos filhos e filhas. Acresçam a isso o espaço para surpresas e inesperados que esta posição traz em si, necessariamente…

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Bem, não sei se consegui convencê-los, nem sei se era isso que queria, realmente, mas posso declarar que em minha vida e em retrospectiva, isto me garantiu uma deliciosa coleção de dias perfeitos, cujas histórias minha filha não se cansa de ouvir.

• quarta-feira, abril 29th, 2009

Queridos e Queridas,

Vocês são mesmo sensacionais!!!! Com seus comentários, economizamos anos – séculos, para ser mais precisa – de história da filosofia ocidental e podemos aproveitar melhor o mote do dia: a análise dos resultados do Enem 2008, divulgada hoje nas primeiras páginas dos jornais.

Apenas para manter a linha de nossa discussão, vamos organizar o que vocês já disseram, estabelecendo que desde o Renascimento e o abandono da idéia de que somos “imagem e semelhança” de algum deus, ficamos liberados da perfeição como algo realizável – esta ficou para a divindade – e fadados à perfeição como um ideal interessante. Ou seja, ficamos convencidos de que não é possível ser perfeito, mas não custa nada tentar, porque qualquer aproximação é interessante, uma vez que estas aproximações sucessivas nos levariam ao que vocês estão chamando de “dar o melhor de si”.

Parece um alívio, não é mesmo? Pois é, mas o problema de “dar o melhor de si” é o tal do pronome pessoal, como bem argumentou Leonardo (aliás, obrigada por Clarice, Léo, sempre um presente!), em seu comentário. Nós pedimos aos filhos e filhas que deem o melhor de si, mas como sabemos o que é mesmo esse melhor em cada situação dada para cada um deles? Então, não sabemos! Para decidir se o investimento de alguém foi o melhor possível para aquela pessoa naquele momento só há duas formas possíveis: comparar o desempenho ou os resultados obtidos por ela com os resultados obtidos por outros mais ou menos iguais ou perguntar à pessoa e tomar como verdadeira a resposta: você deu o melhor de si?

precisamente

Por motivos para mim misteriosos, a primeira opção parece ser a mais usual, a preferida. E aqui chegamos ao Enem.

A classificação das escolas está em todos os jornais de hoje e as análises sobre os dados obtidos no Enem são fartas e plurais. Não encontrei, entretanto, uma análise que mostrasse o limite desta informação, limite importante para entendermos tudo o mais que se diz a respeito, inclusive a tão famosa classificação das escolas.

Vamos a ele, então: o Enem é um exame nacional de participação voluntária e com um fim pragmático. Em outras palavras, o Enem só é feito por aqueles que querem fazê-lo e estes costumam fazê-lo com um propósito bem específico: acumular pontos para o vestibular, preferencialmente o exame das grandes universidades estaduais ou federais.

Isso significa que as escolas que obtiveram os melhores resultados podem perfeitamente estar falando da participação exclusiva de seus três melhores alunos, todos eles interessados em ingressar nos cursos de medicina ou mecatrônica da universidade federal mais próxima.

Vamos ampliar a análise dos desdobramentos deste limite sobre as interpretações dos resultados do Enem, mas agora com a participação de vocês todos, que torna tudo mais interessante, sempre.

Abraço enorme e agradecido por seu interesse e envolvimento, que tornam meu trabalho aqui muito, muito mais divertido!

• sexta-feira, abril 24th, 2009

Queridos e Queridas,

abertura oficial deste espaço para toda a comunidade escolar estendida, que é um jeito muito chique de dizer: todos aqueles que têm algo a ver com a Ânima, seja por interesses diretos, indiretos, ou mera simpatia, que é um forma carinhosa de se interessar por algo.
Aproveitamos este novo começo para inaugurar também um novo tema, sugestão da Regina, mãe da Anouk. E que tema! A própria idéia de perfeição e de que forma ela encontra nossos desejos e angústias nas mais diversas tarefas do cotidiano, entre elas e especialmente, as decisões que tomamos acerca de nossos filhos e filhas.
Precisei de um intervalo para alguma pesquisa inicial, tentativa de coletar algumas idéias que nos dessem estofo e permitissem o início da conversa que, logo - espero e conto com isso -, será largamente ampliada pelas participações, opiniões, posições, contribuições de todos vocês.
Assim, uma vez mais, sintam-se muito bem-vindos, queridos, desejados, esperados!

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Quando li pela primeira vez a sugestão da Regina, pensei: interessante mesmo, mas difícil, difícil…. Mas esse é um espaço entre amigos e, por isso, um espaço de conforto, um espaço em que se conversa sobre o que quer que seja, sem o compromisso das Leis e Normas e regras gerais de funcionamento da academia, sem o compromisso com a perfeição, não é mesmo? Assim, o desafio, embora difícil ainda, torna-se possível, quem sabe até divertido!

Minhas pesquisas iniciais mostram que o conceito de perfeição não é absolutamente novo para a humanidade, muito pelo contrário: é um dos mais antigos, um dos primeiros que essa nossa cultura humana deu conta de elaborar.

O próprio termo que o nomeia – em nossa própria língua e em quase todas as línguas ocidentais - tem sua origem no Latim e inclui a idéia de completude (o prefixo per), de totalidade.

Assim, na origem, algo perfeito significaria aquilo que teria sido feito (este é o radical do termo faccere, ou fazer) de tal forma que excederia o necessário à mera existência, algo tão bem feito que alcançaria o estatuto de modelo exemplar do que quer que seja. Desta forma, uma ferramenta perfeita, seria A Ferramenta entre todas as demais, aquela que reuniria todos os atributos e qualidades que, de outra forma, encontraríamos apenas distribuídos entre o conjunto de todas as ferramentas existentes.

Complicado? Nem tanto… Mantendo nossa metáfora, A Ferramenta perfeita seria aquela que reuniria, em si, os atributos funcionais do martelo, do alicate, da chave de fenda, etc. Ampliando a metáfora, seria o mais perfeito canivete suíço!

Bem, começamos…. vamos ver para onde essa discussão se encaminha com os comentários e contribuições de vocês…
Por enquanto, gostaria que mantivéssemos algumas dessas idéias originais como cabos-guia para nossa discussão: a noção de completude, a idéia de que a perfeição se liga a algo feito, a um trabalho, portanto, e, finalmente, a idéia de que a perfeição, caso exista, é necessariamente singular.

• quarta-feira, março 11th, 2009

Muito bem, queridos e queridas, momento de nos aproximarmos do final deste assunto, a adaptação, numa coincidência interessante com o que nossos alunos e alunas também estão fazendo por agora.

Rosely Sayão prossegue em seu texto com a seguinte conclusão:

“Para a criança, isso não é bom. Em primeiro lugar, porque a separação fica mais sofrida por durar muito mais tempo, o que dificulta e atrasa a apropriação de seu novo espaço. Em segundo, porque a sala fica com um clima artificial: professoras constrangidas, mães que interferem no espaço, crianças que poderiam ficar mais à vontade e que são aprisionadas pelo olhar da mãe etc.

Se as escolas fossem mais firmes no propósito de ter no aluno seu foco principal, esse período seria menos penoso para todos. Claro que algumas crianças continuarão chorando por um tempo para entrar na escola e algumas mães continuarão resistindo à separação, mas isso sempre ocorreu e ocorrerá.

Enquanto acreditarmos que esse processo é necessário, ele será. Só por isso, e não pela necessidade das crianças. Elas podem reagir diferentemente do que esperamos nessa situação. Basta que tenham oportunidade para tanto.”

 

Aqui, parece-nos, as proposições da autora trazem complicações mais sérias.

Afinal, a partir de afirmação unívoca - “para a criança, isso não é bom” - a autora nos coloca a todos, escola e família, na posição daqueles que criam e mantêm esta situação tão nociva.

Sayão também apresenta as razões que teríamos para fazer esse tipo de coisa com nossas crianças e argumenta que tudo se resolveria melhor sem nossa intervenção, que prolonga e artificializa a situação que, justamente, gera sofrimento às crianças.

Interessante notar que um dos comentários - o do Flávio - do post anterior a este lembrava justamente de quando as crianças iam à escola e separavam-se de seus pais no portão, desde o primeiro dia de aula e assim era para todo o sempre. Os pais deste tempo sabiam, inclusive, que ser chamados à escola era mau negócio: significava ou que seu filho tinha aprontado ou que ele não aprendia bem. Bons tempos?

O comentário do Flávio (Leleto) e a autora lembram que, sim, muitas crianças sobreviviam a esta situação sem maiores questões, passavam pela escola e pronto: a vida era assim mesmo. Apenas o Flávio, entretanto, lembra-se que também havia outras crianças: as que choravam; as que não choravam, mas para quem não estava tudo bem; as que faziam cara de tudo bem, mas paravam de falar, e uma infinidade de situações possíveis para a criatividade própria do humano (aliás, há um conto delicadíssimo e belo sobre um primeiro dia de aula desastroso mas que, nem por isso, tem qualquer poder destruidor sobre a vida do aluno, que acho que todos deveriam ler: A Língua das Mariposas. Sugiro que escolham a versão em Galego e desfrutem dois prazeres: o do texto, que é delicioso, e o de conhecer uma língua tão parecida com o Português, porque lhe deu origem!).

A permanência dos pais na escola pode não ser a melhor idéia para o período de adaptação no que concerne ao bem-estar da criança? Pode ser, para algumas crianças… Para outras, pode ser sensacional; para outras, ainda, pode ser indiferente, pouco importante; para outras, pode ser absolutamente essencial. Como dissemos no início, o que é impossível mesmo é fazer afirmações que cubram toda a enormidade da diversidade do humano em geral, da infância em especial.

Finalmente, uma última observação. A autora termina seu artigo dizendo que a adaptação, da forma como a fazemos não é uma necessidade para as crianças. Bem, pode não ser mesmo. Mas as necessidades dizem respeito apenas e exclusivamente à sobrevivência: alimentar-se, manter-se inteiro, proteger-se, etc.

A vida, como todos sabemos, é maior do que sobreviver, até por isso, recebe outro nome, não é mesmo? Por que a economia, nesse caso?

• terça-feira, março 03rd, 2009
a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças

a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças

Queridos e Queridas,

 

Vamos começar a semana - e, na opinião de alguns, o ano, pois o carnaval, afinal, já foi - dando continuidade à nossa discussão sobre o que nos diz Rosely Sayão em seu artigo de 05 de fevereiro último. Vejamos como segue o artigo:

“Ao mesmo tempo, sabemos que as crianças crescem melhor junto a outras crianças. Como hoje as famílias não têm mais o hábito de frequentar com regularidade a casa de outras famílias, as crianças vão para a escola cada vez mais cedo para conviver com seus pares - e isso não é problema, desde que seus pais estejam seguros de sua decisão.

Esse período de adaptação se transformou em um processo complexo e que pouco auxilia a criança pequena. As escolas, cada uma à sua maneira, inventaram uma série de dispositivos para amenizar a mudança para a criança, mas o alvo principal desse processo são os pais. Na família atual, a relação entre pais e filhos é a única que dura até a morte, já que todas as outras relações afetivas são passíveis de dissolução. Isso gerou consequências, como a dedicação afetiva extremada dos pais em relação aos filhos.

Ao levar o filho pequeno para a escola, os pais sentem culpa, angústia, insegurança. E foi por isso que muitas escolas decidiram permitir que eles fiquem com os filhos no início. É para aquietar os pais, não os filhos, que o processo foi inventado.”

A escola tornou-se o lugar onde crianças podem, enfim, conviver com seus iguais, o que não é pouco.

E não é pouco para ninguém:

- para as próprias crianças, que devem aprender, então, que nas relações simétricas - as que se dão entre iguais - as regras são outras: o cuidado não é mais uma prerrogativa, as negociações sociais deverão ser, cada vez mais, fundadas em argumentos convincentes e a idéia de justiça começará a se formar aqui, acompanhada de sua negação - a injustiça;

- para os pais, que devem, pela primeira vez, entregar seus rebentos ao mundo, tal como ele é, mesmo que a escola deva ser uma versão amenizada desse mundão. Para isso, é preciso mais do que confiar na escola, o que é, sem dúvida, fundamental: é preciso confiar em si mesmos e nos esforços educativos que dirigiram e dirigem a esta criança que, agora, vai aplicar o que aprendeu mais ou menos por conta própria;

- e para a escola, é claro, que fica encarregada de encontrar encaminhamentos interessantes para essa maravilhosa diversidade que ali se encontra, com representantes de famílias distintas, únicas e, assim, também de seus valores, posições, desejos, expectativas.

É claro que todos precisam, sim, de um pouco de conforto para iniciar esta experiência.

A presença de pais e mães na escola então se configura como uma delegação de poderes educativos, até então centrados apenas neles mesmos e em outros adultos próximos, para toda a humanidade, na figura dos professores e professoras que a representam na escola.

E é importante, sim, que essa delegação, esse gesto simbólico de partilha do poder educativo seja testemunhada pelas crianças, pois é assim que seu ingresso nessa instância social ampliada que é a escola se dá a partir de um voto de confiança nelas mesmas e em sua possibilidade de fazer parte disso tudo por escolha própria.

É importante lembrar que a escola não é das crianças sempre e muito menos no início: foi inventada por adultos, é decidida por adultos, é escolhida por adultos, são adultos aqueles que a regem. Para as crianças, a escola é uma conquista, não algo dado, como poderia parecer.

Em nosso próximo encontro, o final do artigo ou sobre como as crianças se apropriam das escolas que lhes cabem.

Abraços pós-carnavalescos a todos e todas!