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autor: lilian
• quinta-feira, julho 02nd, 2009

A antecipação da alfabetização e a perda do lúdico

Queridos e Queridas,

Como é costume, nossas conversas por e-mail sempre geram outras conversas, outras questões, outras histórias. A conversa com a Dani foi assim também e, a cada nova mensagem, tornava-se cada vez mais rica e interessante. Vejam como neste “condensado” - uma postagem que agrega o primeiro e-mail com as perguntas, e o segundo, com as respostas:

Li,

Me ajuda com mais algumas dúvidas?

Por que houve essa mudança na lei da escola, que trouxe esse adiantamento no processo de alfabetização?
Tem a ver somente com uma questão política e econômica, de repasse de verbas das instâncias governamentais? Ouvi isso de passagem e fiquei apavorada!

1. A mudança da lei: ela não atrasa nem adianta processos de alfabetização, apenas determina uma idade diferente para o ingresso na escola de ensino fundamental. Veja bem, não há nada na lei que determine o que se estuda na escola de ensino fundamental, portanto não há alteração de currículo. Sim, ela atende a interesses mais ligados à escola pública, como a destinação de verbas e atribuição (federal, estadual ou municipal) sobre os níveis de Ensino.

Por que há tanta resistência em ensinar a escrita pras crianças mais novas?

2. Quem resiste ao ensino da escrita para crianças mais novas? Tenho observado o contrário, um desejo desmedido de antecipação de ensinar não só a escrita, mas tudo antes, muito antes do que se faz classicamente, por motivos dos mais esquisitos: janelas de oportunidade, inteligências múltiplas, mundo competitivo, mercado de trabalho, sei lá….
Os resistentes são poucos e bravos….

Ela tem o poder de acabar com o lúdico, de anular possibilidades criativas? Destrói algum encanto? Eu não compreendo isso.

 

Como saber se o ensino da escrita e dos números está sendo apenas uma “brincadeira” ou se está sendo alfabetização de verdade?

3. Não há conteúdo ou conhecimento, exceto o sexual, que tenha poder, por si, de acabar com o lúdico, mas há um montão de adultos com este poder, sim. Então, se para ensinar uma criança de três ou quatro anos - ou sete, oito, dez anos - a escrever ou o que quer que seja, considero necessário que ela passe todo o tempo sentada e inativa, atenta ao que um adulto fala ou mostra, ou dedicada a um sem número de atividades gráficas que consomem seu tempo, olhos e dedinhos, bem algo está errado e o lúdico será certamente extinto, se por mais nada, pela falta de tempo para ele….

É preciso lembrar, sempre, que ler e escrever são verbos transitivos diretos, não? A gente lê e escreve algo e são esses muitos algos aos quais se tem acesso por meio da leitura e escrita que, no limite, vão eliminar o lúdico, ou, antes, transferi-lo para outras instâncias da atividade humana, como a literatura, por exemplo.

O que é feito na Waldorf de tão diferente das outras escolas?
Por que não há vagas e há tanta procura nas escolas Waldorf? Você conhece a pedagogia? Qual sua opinião?

4. Escolas Waldorf exigem convicção e fidelidade. Baseadas nas teorias de Rudolph Steiner, falam de uma forma de estar no mundo, muito mais do que uma escola. Pedagogicamente, tem problemas que considero severos, mas é sempre preciso considerar o que se deseja para nossas filhas para fazer esta avaliação (lembre-se que você pediu minha opinião, não uma avaliação técnica!). Conheço bastante bem esta modalidade de educação e, se você quiser, podemos conversar mais longamente sobre isso.
O problema de vagas é mais fácil: são poucas escolas e, como disse, atendem a famílias fiéis….

Beijos,
Lilian

• terça-feira, junho 30th, 2009

A alfabetização e a familiarização com os símbolos gráficos

Queridos e Queridas,

Continuando nossa proposta de tornar públicas conversas interessantes que acontecem por e-mail e, assim, particularmente, publicamos agora a conversa com a Dani, mãe de uma aluna de nosso G5.
Dani participa de um grupo de discussão, também virtual, destinado a mães e pais de crianças desta idade e usou, para responder à pergunta de outro membro do grupo, algo que já havíamos discutido em uma de nossas reuniões de pais, aqui na Ânima.

Assim, começaremos essa nova partilha com o texto que a própria Dani escreveu para responder à dúvida de sua companheira de grupo e de maternagem:

Escrevi esse email abaixo há pouco para algumas mães da minha lista de discussão, quando apareceu uma mãe apavorada porque seu filho de 5 anos está tendo muitas lições de casa para aprender a escrever as letras cursivas.

Tentei resgatar o que ficou pra mim daquela palestra sobre alfabetização e os conteúdos do G5 e 1o ano:

Eu também tinha essa preocupação com a alfabetização da Clara, que está com 4,6
anos.

Ela já conhece todos os números e letras do alfabeto e está aprendendo a
escrever todos eles em letra de forma.

Faz tudo ao contrário, faz letra emendada, voando, fora de ordem, eu dou
risada. E apóio e oriento as lições dela, que sempre pedem para fazer um
desenho e depois as letras da palavra desenhada.

Percebo que há muito interesse dela sobre isso, muito mesmo, principalmente
depois que ela descobriu que eu uso essas letras o dia inteiro porque fico no
computador trabalhando.

Ela quer entender o que eu faço e aprender as letras
é como ela acha que pode compartilhar esse conhecimento comigo.

Numa reunião na escola da Clara com a diretora pedagógica, acabei
convencida de que esse relacionamento das crianças com as letras e os
números não é alfabetização ainda, mas uma familiarização das crianças com sinais
gráficos, uma vez que aos 4 ou 5 anos elas já começam simbolizar
mais.

Segundo ela, mesmo se relacionando com as letras desde os 4 anos, as
crianças não aprendem a ler (ainda que algumas o façam, meio sem querer).

A maioria acaba escrevendo as letras desde os quatro, mas só consegue ler de verdade
aos 7 ou 8 anos, como num passe de mágica, pois esta é uma aprendizagem que envolve muito mais do que meramente desenhar letras e números e leva muito tempo para ser organizada.

O que a escola está trabalhando não é só alfabetização, mas o aprimoramento do campo simbólico.

Ela diz que o objetivo pedagógico não é apenas ensinar a ler e escrever, mas trabalhar mais duas classes de sinais/códigos humanos (números e letras), porque nessa idade as crianças já sacam que existem esses códigos, que os adultos os dominam e com que podem comunicar idéias (assim como elas – crianças – já sabem que podem comunicar
idéias
com os desenhos que elas produzem).

O aprendizado da escrita acaba chamando mais a atenção dos pais no conjunto da
obra, não se sabe bem porquê, mas no G5 da Ânima a escrita é trabalhada diariamente, embora de formas muito diferentes, é também trabalhada desde que as crianças são muito pequenas, muito menores do que os cinco anos de sua filha, assim
como o desenho, a música, a pintura, as atividades motoras, enfim, é mais
uma dentre as tantas atividades que as crianças têm durante o período escolar.

Como ela confere um certo “poder” às crianças, porque elas se sentem mais
“adultas” achando que dominam um código antes pertencente exclusivamente ao
mundo dos adultos, elas acabam dando mais destaque a esse aprendizado do que aos
outros, então parece que estão aprendendo só isso. Mas não é por aí.

Eu me convenci disso. O que parece a vocês?

Espero ter ajudado,

Bjs, Dani