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• quinta-feira, maio 07th, 2009

Queridos e Queridas,

Como nossa discussão sobre o Enem e suas interpretações foi transferida para outra instância, achei que poderia ser bem interessante retomarmos aqui nossa discussão original sobre a ilusão de perfeição e o lugar que ela vem ocupando no imaginário de todos nós, pós-modernos, especialmente estes de nós que resolvemos aceitar o desafio e a aventura que é ter filhos e filhas.

Como disse antes, vocês são rápidos e suas participações fazem a discussão andar por rumos novos e inesperados.

Nos comentários de vocês, aparecem duas idéias fortes que, creio, podemos explorar juntos: a perfeição como ideal, por definição inalcançável, mas que mantida como referência nos proporcionaria um percurso de aproximações sucessivas desejável e a negação completa da perfeição, até mesmo como ideal desejável, e sua substituição por idéias mais relativas, como “o possível” ou “o melhor de si”.

Pessoalmente, fui convencida, ao longo da e pela vida, de que “o possível” ou “o melhor que podíamos para o momento” é a única coisa com que podemos contar certamente. E esta é uma posição que me parece interessante pelos motivos que passo a elencar.

Primeiramente, saber que fazemos “o melhor que podemos para o momento” não gera culpa. Mesmo que analisemos a situação posteriormente e, então, descubramos que havia, sim, alternativas interessantes para aquela que, eventualmente, escolhemos, aí já é outro momento e a análise se beneficia de elementos que não estavam disponíveis quando da escolha – como, por exemplo, os efeitos e desdobramentos que todas as escolhas trazem em si – e aí, não vale, é claro.

Por outro lado, e como segunda vantagem intrínseca, a análise posterior, esta mesma que conta com os tais novos elementos, se dá, obviamente, em outro momento, e isso significa sempre que podemos aprender, pois se tivéssemos que escolher novamente, agora, escolheríamos diferentemente e, supostamente, melhor, pois sabemos mais sobre o objeto da escolha do que sabíamos antes.

Terceira vantagem, complementar à segunda: na maior parte dos casos, as escolhas não são fatalismos – sempre há possibilidade e tempo para reverter, mudar de idéia, fazer correções desejáveis. A vida anda.

Quarta e a mais importante das vantagens: convencer-se de que não só nós mesmos, mas todos, fazemos nossas escolhas assim, apresentando “o melhor que podem para o momento” e, por extensão, todas se beneficiam das vantagens já enumeradas, conseguimos uma dimensão generosa de compreensão para nossos pares e iguais que transforma todas as nossas relações.

Muito bem, agora façam comigo um breve exercício: apliquem cada uma das vantagens apresentadas ao cotidiano que todos vivemos com nossos filhos e filhas. Acresçam a isso o espaço para surpresas e inesperados que esta posição traz em si, necessariamente…

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Bem, não sei se consegui convencê-los, nem sei se era isso que queria, realmente, mas posso declarar que em minha vida e em retrospectiva, isto me garantiu uma deliciosa coleção de dias perfeitos, cujas histórias minha filha não se cansa de ouvir.

• terça-feira, março 03rd, 2009
a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças

a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças

Queridos e Queridas,

 

Vamos começar a semana - e, na opinião de alguns, o ano, pois o carnaval, afinal, já foi - dando continuidade à nossa discussão sobre o que nos diz Rosely Sayão em seu artigo de 05 de fevereiro último. Vejamos como segue o artigo:

“Ao mesmo tempo, sabemos que as crianças crescem melhor junto a outras crianças. Como hoje as famílias não têm mais o hábito de frequentar com regularidade a casa de outras famílias, as crianças vão para a escola cada vez mais cedo para conviver com seus pares - e isso não é problema, desde que seus pais estejam seguros de sua decisão.

Esse período de adaptação se transformou em um processo complexo e que pouco auxilia a criança pequena. As escolas, cada uma à sua maneira, inventaram uma série de dispositivos para amenizar a mudança para a criança, mas o alvo principal desse processo são os pais. Na família atual, a relação entre pais e filhos é a única que dura até a morte, já que todas as outras relações afetivas são passíveis de dissolução. Isso gerou consequências, como a dedicação afetiva extremada dos pais em relação aos filhos.

Ao levar o filho pequeno para a escola, os pais sentem culpa, angústia, insegurança. E foi por isso que muitas escolas decidiram permitir que eles fiquem com os filhos no início. É para aquietar os pais, não os filhos, que o processo foi inventado.”

A escola tornou-se o lugar onde crianças podem, enfim, conviver com seus iguais, o que não é pouco.

E não é pouco para ninguém:

- para as próprias crianças, que devem aprender, então, que nas relações simétricas - as que se dão entre iguais - as regras são outras: o cuidado não é mais uma prerrogativa, as negociações sociais deverão ser, cada vez mais, fundadas em argumentos convincentes e a idéia de justiça começará a se formar aqui, acompanhada de sua negação - a injustiça;

- para os pais, que devem, pela primeira vez, entregar seus rebentos ao mundo, tal como ele é, mesmo que a escola deva ser uma versão amenizada desse mundão. Para isso, é preciso mais do que confiar na escola, o que é, sem dúvida, fundamental: é preciso confiar em si mesmos e nos esforços educativos que dirigiram e dirigem a esta criança que, agora, vai aplicar o que aprendeu mais ou menos por conta própria;

- e para a escola, é claro, que fica encarregada de encontrar encaminhamentos interessantes para essa maravilhosa diversidade que ali se encontra, com representantes de famílias distintas, únicas e, assim, também de seus valores, posições, desejos, expectativas.

É claro que todos precisam, sim, de um pouco de conforto para iniciar esta experiência.

A presença de pais e mães na escola então se configura como uma delegação de poderes educativos, até então centrados apenas neles mesmos e em outros adultos próximos, para toda a humanidade, na figura dos professores e professoras que a representam na escola.

E é importante, sim, que essa delegação, esse gesto simbólico de partilha do poder educativo seja testemunhada pelas crianças, pois é assim que seu ingresso nessa instância social ampliada que é a escola se dá a partir de um voto de confiança nelas mesmas e em sua possibilidade de fazer parte disso tudo por escolha própria.

É importante lembrar que a escola não é das crianças sempre e muito menos no início: foi inventada por adultos, é decidida por adultos, é escolhida por adultos, são adultos aqueles que a regem. Para as crianças, a escola é uma conquista, não algo dado, como poderia parecer.

Em nosso próximo encontro, o final do artigo ou sobre como as crianças se apropriam das escolas que lhes cabem.

Abraços pós-carnavalescos a todos e todas!