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• quarta-feira, abril 29th, 2009

Queridos e Queridas,

Vocês são mesmo sensacionais!!!! Com seus comentários, economizamos anos – séculos, para ser mais precisa – de história da filosofia ocidental e podemos aproveitar melhor o mote do dia: a análise dos resultados do Enem 2008, divulgada hoje nas primeiras páginas dos jornais.

Apenas para manter a linha de nossa discussão, vamos organizar o que vocês já disseram, estabelecendo que desde o Renascimento e o abandono da idéia de que somos “imagem e semelhança” de algum deus, ficamos liberados da perfeição como algo realizável – esta ficou para a divindade – e fadados à perfeição como um ideal interessante. Ou seja, ficamos convencidos de que não é possível ser perfeito, mas não custa nada tentar, porque qualquer aproximação é interessante, uma vez que estas aproximações sucessivas nos levariam ao que vocês estão chamando de “dar o melhor de si”.

Parece um alívio, não é mesmo? Pois é, mas o problema de “dar o melhor de si” é o tal do pronome pessoal, como bem argumentou Leonardo (aliás, obrigada por Clarice, Léo, sempre um presente!), em seu comentário. Nós pedimos aos filhos e filhas que deem o melhor de si, mas como sabemos o que é mesmo esse melhor em cada situação dada para cada um deles? Então, não sabemos! Para decidir se o investimento de alguém foi o melhor possível para aquela pessoa naquele momento só há duas formas possíveis: comparar o desempenho ou os resultados obtidos por ela com os resultados obtidos por outros mais ou menos iguais ou perguntar à pessoa e tomar como verdadeira a resposta: você deu o melhor de si?

precisamente

Por motivos para mim misteriosos, a primeira opção parece ser a mais usual, a preferida. E aqui chegamos ao Enem.

A classificação das escolas está em todos os jornais de hoje e as análises sobre os dados obtidos no Enem são fartas e plurais. Não encontrei, entretanto, uma análise que mostrasse o limite desta informação, limite importante para entendermos tudo o mais que se diz a respeito, inclusive a tão famosa classificação das escolas.

Vamos a ele, então: o Enem é um exame nacional de participação voluntária e com um fim pragmático. Em outras palavras, o Enem só é feito por aqueles que querem fazê-lo e estes costumam fazê-lo com um propósito bem específico: acumular pontos para o vestibular, preferencialmente o exame das grandes universidades estaduais ou federais.

Isso significa que as escolas que obtiveram os melhores resultados podem perfeitamente estar falando da participação exclusiva de seus três melhores alunos, todos eles interessados em ingressar nos cursos de medicina ou mecatrônica da universidade federal mais próxima.

Vamos ampliar a análise dos desdobramentos deste limite sobre as interpretações dos resultados do Enem, mas agora com a participação de vocês todos, que torna tudo mais interessante, sempre.

Abraço enorme e agradecido por seu interesse e envolvimento, que tornam meu trabalho aqui muito, muito mais divertido!

• quarta-feira, março 11th, 2009

Muito bem, queridos e queridas, momento de nos aproximarmos do final deste assunto, a adaptação, numa coincidência interessante com o que nossos alunos e alunas também estão fazendo por agora.

Rosely Sayão prossegue em seu texto com a seguinte conclusão:

“Para a criança, isso não é bom. Em primeiro lugar, porque a separação fica mais sofrida por durar muito mais tempo, o que dificulta e atrasa a apropriação de seu novo espaço. Em segundo, porque a sala fica com um clima artificial: professoras constrangidas, mães que interferem no espaço, crianças que poderiam ficar mais à vontade e que são aprisionadas pelo olhar da mãe etc.

Se as escolas fossem mais firmes no propósito de ter no aluno seu foco principal, esse período seria menos penoso para todos. Claro que algumas crianças continuarão chorando por um tempo para entrar na escola e algumas mães continuarão resistindo à separação, mas isso sempre ocorreu e ocorrerá.

Enquanto acreditarmos que esse processo é necessário, ele será. Só por isso, e não pela necessidade das crianças. Elas podem reagir diferentemente do que esperamos nessa situação. Basta que tenham oportunidade para tanto.”

 

Aqui, parece-nos, as proposições da autora trazem complicações mais sérias.

Afinal, a partir de afirmação unívoca - “para a criança, isso não é bom” - a autora nos coloca a todos, escola e família, na posição daqueles que criam e mantêm esta situação tão nociva.

Sayão também apresenta as razões que teríamos para fazer esse tipo de coisa com nossas crianças e argumenta que tudo se resolveria melhor sem nossa intervenção, que prolonga e artificializa a situação que, justamente, gera sofrimento às crianças.

Interessante notar que um dos comentários - o do Flávio - do post anterior a este lembrava justamente de quando as crianças iam à escola e separavam-se de seus pais no portão, desde o primeiro dia de aula e assim era para todo o sempre. Os pais deste tempo sabiam, inclusive, que ser chamados à escola era mau negócio: significava ou que seu filho tinha aprontado ou que ele não aprendia bem. Bons tempos?

O comentário do Flávio (Leleto) e a autora lembram que, sim, muitas crianças sobreviviam a esta situação sem maiores questões, passavam pela escola e pronto: a vida era assim mesmo. Apenas o Flávio, entretanto, lembra-se que também havia outras crianças: as que choravam; as que não choravam, mas para quem não estava tudo bem; as que faziam cara de tudo bem, mas paravam de falar, e uma infinidade de situações possíveis para a criatividade própria do humano (aliás, há um conto delicadíssimo e belo sobre um primeiro dia de aula desastroso mas que, nem por isso, tem qualquer poder destruidor sobre a vida do aluno, que acho que todos deveriam ler: A Língua das Mariposas. Sugiro que escolham a versão em Galego e desfrutem dois prazeres: o do texto, que é delicioso, e o de conhecer uma língua tão parecida com o Português, porque lhe deu origem!).

A permanência dos pais na escola pode não ser a melhor idéia para o período de adaptação no que concerne ao bem-estar da criança? Pode ser, para algumas crianças… Para outras, pode ser sensacional; para outras, ainda, pode ser indiferente, pouco importante; para outras, pode ser absolutamente essencial. Como dissemos no início, o que é impossível mesmo é fazer afirmações que cubram toda a enormidade da diversidade do humano em geral, da infância em especial.

Finalmente, uma última observação. A autora termina seu artigo dizendo que a adaptação, da forma como a fazemos não é uma necessidade para as crianças. Bem, pode não ser mesmo. Mas as necessidades dizem respeito apenas e exclusivamente à sobrevivência: alimentar-se, manter-se inteiro, proteger-se, etc.

A vida, como todos sabemos, é maior do que sobreviver, até por isso, recebe outro nome, não é mesmo? Por que a economia, nesse caso?

• terça-feira, março 03rd, 2009
a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças

a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças

Queridos e Queridas,

 

Vamos começar a semana - e, na opinião de alguns, o ano, pois o carnaval, afinal, já foi - dando continuidade à nossa discussão sobre o que nos diz Rosely Sayão em seu artigo de 05 de fevereiro último. Vejamos como segue o artigo:

“Ao mesmo tempo, sabemos que as crianças crescem melhor junto a outras crianças. Como hoje as famílias não têm mais o hábito de frequentar com regularidade a casa de outras famílias, as crianças vão para a escola cada vez mais cedo para conviver com seus pares - e isso não é problema, desde que seus pais estejam seguros de sua decisão.

Esse período de adaptação se transformou em um processo complexo e que pouco auxilia a criança pequena. As escolas, cada uma à sua maneira, inventaram uma série de dispositivos para amenizar a mudança para a criança, mas o alvo principal desse processo são os pais. Na família atual, a relação entre pais e filhos é a única que dura até a morte, já que todas as outras relações afetivas são passíveis de dissolução. Isso gerou consequências, como a dedicação afetiva extremada dos pais em relação aos filhos.

Ao levar o filho pequeno para a escola, os pais sentem culpa, angústia, insegurança. E foi por isso que muitas escolas decidiram permitir que eles fiquem com os filhos no início. É para aquietar os pais, não os filhos, que o processo foi inventado.”

A escola tornou-se o lugar onde crianças podem, enfim, conviver com seus iguais, o que não é pouco.

E não é pouco para ninguém:

- para as próprias crianças, que devem aprender, então, que nas relações simétricas - as que se dão entre iguais - as regras são outras: o cuidado não é mais uma prerrogativa, as negociações sociais deverão ser, cada vez mais, fundadas em argumentos convincentes e a idéia de justiça começará a se formar aqui, acompanhada de sua negação - a injustiça;

- para os pais, que devem, pela primeira vez, entregar seus rebentos ao mundo, tal como ele é, mesmo que a escola deva ser uma versão amenizada desse mundão. Para isso, é preciso mais do que confiar na escola, o que é, sem dúvida, fundamental: é preciso confiar em si mesmos e nos esforços educativos que dirigiram e dirigem a esta criança que, agora, vai aplicar o que aprendeu mais ou menos por conta própria;

- e para a escola, é claro, que fica encarregada de encontrar encaminhamentos interessantes para essa maravilhosa diversidade que ali se encontra, com representantes de famílias distintas, únicas e, assim, também de seus valores, posições, desejos, expectativas.

É claro que todos precisam, sim, de um pouco de conforto para iniciar esta experiência.

A presença de pais e mães na escola então se configura como uma delegação de poderes educativos, até então centrados apenas neles mesmos e em outros adultos próximos, para toda a humanidade, na figura dos professores e professoras que a representam na escola.

E é importante, sim, que essa delegação, esse gesto simbólico de partilha do poder educativo seja testemunhada pelas crianças, pois é assim que seu ingresso nessa instância social ampliada que é a escola se dá a partir de um voto de confiança nelas mesmas e em sua possibilidade de fazer parte disso tudo por escolha própria.

É importante lembrar que a escola não é das crianças sempre e muito menos no início: foi inventada por adultos, é decidida por adultos, é escolhida por adultos, são adultos aqueles que a regem. Para as crianças, a escola é uma conquista, não algo dado, como poderia parecer.

Em nosso próximo encontro, o final do artigo ou sobre como as crianças se apropriam das escolas que lhes cabem.

Abraços pós-carnavalescos a todos e todas!

• quinta-feira, fevereiro 19th, 2009

Queridos e Queridas,

Antes de, como prometido, começarmos nossa discussão sobre o artigo de Rosely Sayão, gostaria de fazer um breve, mas intenso, agradecimento à adesão impressionante e a não menos impressionante generosidade de todos!!!

Agora, à nossa discussão. Rosely Sayão escreve, semanalmente , no caderno Folha Equilíbrio, do Jornal A Folha de São Paulo, sempre sobre temas que dizem respeito a pais, filhos e escolas. Neste artigo, fala sobre o período de adaptação escolar, a propósito do ano letivo que se inicia. Para aqueles que gostariam de ler o artigo na íntegra antes de começarmos a comentá-lo e ainda não puderam fazê-lo, ele está disponível no blog da própria Rosely Sayão. Para aqueles que preferem apenas acompanhar a discussão, reproduzo aqui os primeiros parágrafos:

Nesta semana, milhares de crianças com menos de cinco anos começaram a frequentar a escola. Muitas estreiam no espaço escolar, mas mesmo as que já o frequentaram por um período podem estranhar a separação dos pais e o afastamento de casa no retorno das férias. Por isso, elas passam por um processo de adaptação.

A reação das crianças nesses dias é bem diversificada: muitas entram na escola e já vão brincar, outras choram, outras ainda se agarram nos pais, sem contar as que se recusam a sair do carro. Mas tudo pode mudar em dias ou semanas: as que entraram sem problemas podem expressar recusa, as que choravam podem entrar sem problema e assim por diante.

É bom saber que tais comportamentos -e a alternância entre eles- são naturais. Afinal, a criança na primeira infância tem sua vida intensamente ligada às pessoas com as quais tem vínculo afetivo e ao espaço de sua casa porque é isso que oferece a segurança necessária para que ela se sinta tranquila.”

A autora começa seu artigo afirmando que, para crianças pequenas, um período de adaptação ao ingresso ou retorno escolar é necessário, pois haveria um importante vínculo afetivo entre as próprias crianças, suas famílias e suas casas. Bem, o vínculo afetivo entre as crianças e suas famílias é, sim, evidente, e ainda bem que assim o seja. Já o que existiria entre as crianças e suas casas parece-nos bem mais discutível, uma vez que, acompanhadas por adultos em quem possam confiar, as crianças, em geral, topam se aventurar por quaisquer espaços, da forma curiosa e interessada que só elas têm em seus primeiros anos. Parece que o contrário também é verdadeiro, porque são poucas as crianças que ficariam confortáveis se deixadas sozinhas em casa, especialmente em seus primeiros anos de vida, não?

O que nos parece mais frequente é que as crianças encontrem um genuíno prazer na exploração de novos espaços, domiciliares ou não, desde que acompanhadas pelos adultos em quem confiam, com quem podem contar. Afinal, qualquer adulto sabe que é preciso ficar de olho nas crianças, mesmo e especialmente em suas próprias casas, porque não há escada, degrau ou tomada que escape dessa exploração. É por isso também que exatamente dois segundos antes de atirar-se ao primeiro degrau ou colocar o dedinho na tomada, qualquer criança que se preze olha para o adulto mais próximo e sustenta esse olhar pelo tempo suficiente para ver que cara faz o adulto convocado.

A autora segue, dizendo que as crianças criam respostas diferentes e criativas para a inovação que a escola representa em suas vidas - e para todas as outras que cuidamos de inventar, poderíamos acrescentar -  e que essa diversidade e sua alternância seriam naturais.

Ora, natural parece um adjetivo muito pouco provável para descrever o que fazem as crianças e exatamente a diversidade e a singularidade das respostas que elas nos dão deveria ser suficiente para demonstrar isso, afinal, cada criança dá a sua resposta, não a da espécie, não a do instinto, não a da natureza.

Parece-nos mais provável que cada criança, assim como nós antes delas e ainda, chegue ao momento da adaptação escolar com os recursos que tenha extraído de um único lugar: o imenso repertório de modelos de interação social existente. Cada criança chegará à escola ou a ela retornará com essa bagagem do que pôde aprender com os adultos com quem conviveu, que a ela se dedicaram. E, se não é muito, certamente tem sido suficiente.

Continuamos no próximo texto, quando a participação de vocês tiver ampliado a discussão e o espaço de autoria desses comentários.

Um abraço, grande, grato e apertado em todos e cada um.

Lilian Ana Faversani

Diretora Pedagógica