
a escola é o lugar onde as crianças encontram outras crianças
Queridos e Queridas,
Vamos começar a semana - e, na opinião de alguns, o ano, pois o carnaval, afinal, já foi - dando continuidade à nossa discussão sobre o que nos diz Rosely Sayão em seu artigo de 05 de fevereiro último. Vejamos como segue o artigo:
“Ao mesmo tempo, sabemos que as crianças crescem melhor junto a outras crianças. Como hoje as famílias não têm mais o hábito de frequentar com regularidade a casa de outras famílias, as crianças vão para a escola cada vez mais cedo para conviver com seus pares - e isso não é problema, desde que seus pais estejam seguros de sua decisão.
Esse período de adaptação se transformou em um processo complexo e que pouco auxilia a criança pequena. As escolas, cada uma à sua maneira, inventaram uma série de dispositivos para amenizar a mudança para a criança, mas o alvo principal desse processo são os pais. Na família atual, a relação entre pais e filhos é a única que dura até a morte, já que todas as outras relações afetivas são passíveis de dissolução. Isso gerou consequências, como a dedicação afetiva extremada dos pais em relação aos filhos.
Ao levar o filho pequeno para a escola, os pais sentem culpa, angústia, insegurança. E foi por isso que muitas escolas decidiram permitir que eles fiquem com os filhos no início. É para aquietar os pais, não os filhos, que o processo foi inventado.”
A escola tornou-se o lugar onde crianças podem, enfim, conviver com seus iguais, o que não é pouco.
E não é pouco para ninguém:
- para as próprias crianças, que devem aprender, então, que nas relações simétricas - as que se dão entre iguais - as regras são outras: o cuidado não é mais uma prerrogativa, as negociações sociais deverão ser, cada vez mais, fundadas em argumentos convincentes e a idéia de justiça começará a se formar aqui, acompanhada de sua negação - a injustiça;
- para os pais, que devem, pela primeira vez, entregar seus rebentos ao mundo, tal como ele é, mesmo que a escola deva ser uma versão amenizada desse mundão. Para isso, é preciso mais do que confiar na escola, o que é, sem dúvida, fundamental: é preciso confiar em si mesmos e nos esforços educativos que dirigiram e dirigem a esta criança que, agora, vai aplicar o que aprendeu mais ou menos por conta própria;
- e para a escola, é claro, que fica encarregada de encontrar encaminhamentos interessantes para essa maravilhosa diversidade que ali se encontra, com representantes de famílias distintas, únicas e, assim, também de seus valores, posições, desejos, expectativas.
É claro que todos precisam, sim, de um pouco de conforto para iniciar esta experiência.
A presença de pais e mães na escola então se configura como uma delegação de poderes educativos, até então centrados apenas neles mesmos e em outros adultos próximos, para toda a humanidade, na figura dos professores e professoras que a representam na escola.
E é importante, sim, que essa delegação, esse gesto simbólico de partilha do poder educativo seja testemunhada pelas crianças, pois é assim que seu ingresso nessa instância social ampliada que é a escola se dá a partir de um voto de confiança nelas mesmas e em sua possibilidade de fazer parte disso tudo por escolha própria.
É importante lembrar que a escola não é das crianças sempre e muito menos no início: foi inventada por adultos, é decidida por adultos, é escolhida por adultos, são adultos aqueles que a regem. Para as crianças, a escola é uma conquista, não algo dado, como poderia parecer.
Em nosso próximo encontro, o final do artigo ou sobre como as crianças se apropriam das escolas que lhes cabem.
Abraços pós-carnavalescos a todos e todas!


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